Buscar

É na vulnerabilidade que nos vemos.




Ouvimos frequentemente falar sobre a importância de sermos autênticos. Connosco e na relação. Mas não estou certa quanto à conotação da palavra "autenticidade", que numa cultura extremamente positiva (infelizmente!), que promove um modo de estar e ser pensado ao pormenor, com rotinas, controlo e dicas rápidas para não pensarmos sobre nós, aparentemente está relacionada com um ser autêntico mas sempre positivo claro, que aceita (indiscutivelmente), não questiona nem diz que não. E claro... um ataque de raiva ou uma ponta de histerismo, é tudo menos autêntico, sendo mais um bilhete de entrada para o inferno.


Mas vamos lá...Qual o perigo desta autenticidade cheia de limites e julgamentos? Quanto maior a nossa vontade de queremos ser algo que certamente idealizamos, mais contidos somos, porque só o podemos ser, quando reprimimos o lado sombra que tanto queremos esconder. Os nossos medos e incertezas. Os nossos ataques de raiva. A nossa desilusão e tristeza. E claro, a nossa vontade de sermos nós mesmos, sem por vezes ir ao encontro do que o outro espera de nós (ou daquilo que achamos que espera).


E quando num acto de loucura, nos permitimos sentir, temos "saídas infelizes", em que ficamos com as emoções e as palavras à flôr-da-pele. Reagimos sem pensar. Quebramos e ficamos em carne viva em frente a um outro que nos sente. E pensamos e repensamos sobre elas, mais tarde claro. E arrependemo-nos de não sermos mais controlados e "boas pessoas" (ou aquilo de que acreditamos serem feitas estas "boas pessoas!), que ponderam sempre no que dizem e fazem, calculando milimetricamente o efeito das acões e palavras. E ao querermos tanto ter este controlo, deixamos automaticamente de ser autênticos, porque não será a autenticidade o oposto de tudo isto? E não será que boa pessoa é aquela que está por inteiro - com todo o seu amor, entrega, conforto, defeitos, exigências e por vezes mau-feitio-, na relação?


Nem sempre olhei da mesma forma para a autenticidade. Sermos autênticos pressupõe por vezes um maior julgamento, assumirmos as nossas falhas e defeitos, e sermos tão transparentes que ao sentirmos o outro dentro de nós, também permitimos que nos vejam verdadeiramente. E isto de deixar que nos vejam, pode facilmente ser arma e fraqueza ao mesmo tempo, o que nem sempre é fácil de certo. Fraqueza (se lhe quisermos chamar assim) claro, quando o outro se aproveita da nossa autenticidade e do que lê e sente sobre nós-mesmos, porque somos tão transparentes que não estamos a pensar nas nossas expressões faciais, posição na cadeira, emoções e a sua expressão. Mas na verdade, quanto mais reflicto sobre tudo na vida, vejo como é sempre impossível ter o melhor de dois mundos, tal como não há preto sem branco, dia sem noite, alegria sem tristeza e amor sem raiva. E sejamos francos, se somos seres sociais, que crescem e se desenvolvem na relação, não será a melhor forma de viver, relacionarmos-nos com o outro, com a nossa autenticidade, alegria, amor, desvaneios e uma dose de mau-feitio?


É na vulnerabilidade que nos vemos verdadeiramente, que nos sentimos enquanto humanos, e que por trás de todos os títulos, capas e máscaras, somos pessoas. Por inteiro.



Design sem nome (32).png

CONTACTOS

Assuntos Gerais

 filipa.malo.franco@gmail.com

Parcerias e Trabalhos Digitais

joana.cavaco@hitmanagement.pt

  • SoundCloud - Black Circle
  • Facebook - Black Circle
  • Instagram

© FILIPA MALO FRANCO 2020