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“ai que o bebé se porta tão bem”


Chateia-me a expressão: “ai que o bebé se porta tão bem”, quando está tranquilo e bem-disposto.


Chateia-me, não que o bebé esteja de facto bem (logicamente), mas porque se entende que um bebé que esteja mais rabujento, incompreendido, com sono, fome ou falta de colo, não se porta “bem”. E é aqui que a relação com as emoções começa: já em déficit.


Chateia-me, porque se perpetua a ideia de que quando estamos tristes, chateados, desconfortáveis, rabujentos ou desamparados, não estamos a ser pessoas bem-comportadas ou no limite, boas. Como se por sentirmos alguma coisa fora do imposto pela sociedade (achamos nós), nos deixe num lugar propício a sermos mal amados. O que não é verdade. Nem pode.


Chateia-me também, que se diga sempre às crianças que quando estão tristes ou irritadas deveriam respirar fundo ou pensar em coisas boas. Muito menos sem critério, olhando todas as situações como iguais. Ao invés de se acolher e mais importante, dando um significado, co-regulando. E ainda mais, quando se reprova o choro, porque “os meninos não choram” e “as meninas ficam feias” quando o fazem.


Chateia-me e entristece-me, principalmente, quando se diz que os bebés e crianças, “são bebés diferentes” quando se sentem num dia-não. Como se não tivessem o direito de os ter. E pior, quando é o adulto que cliva em bebé bom vs bebé mau, mediante o seu estado de espírito.


Chateia-me que se continue a batalhar contra aquilo que nos protege: as nossas emoções. E entristece-me mais ainda, que os nossos bebés e crianças não possam sentir e ser, sem riscos. E preocupa-me que desde pequeninos por se sentirem tão longe do amor quando são vulneráveis e sinceros, que aos poucos, se fechem ao outro. Com medo de errar. E de amar.

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