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Criar é difícil. Estar em terapia também

Por: Sofia Lebres



Criar é duro. Trate-se de criar algo que ainda não existe, uma obra de arte, um texto ou, no limite, um ser humano. É gratificante, mas duro. E gratificante, principalmente, quando começamos a chegar ao “produto final”, quando, de um projeto amorfo, conseguimos vislumbrar um resultado, mais bem definido. 


Criar é duro, porque é um processo, com muitas etapas que se interpõem e atropelam; com muitos passos que não seguem um caminho linear e que, pelo contrário, é extremamente desorganizado (dentro de uma ordem). Talvez desarrumado seja a melhor palavra. E é ambivalente, porque, por vezes, parece que está tudo a acontecer, outras vezes, parecemos estar vazios e, outras ainda, parece intoxicante, pelo modo como somos invadidos por tantas emoções, contraditórias, e tantas ideias, que não podem ser executadas, todas ao mesmo tempo.


Criar implica entrega e a capacidade para lidar com a imprevisibilidade, porque uma ideia pode ser ótima, na nossa imaginação, mas não resultar na realidade e porque há coisas que não dependem de nós.


Depois, surge o outro problema: quanto mais queremos ou precisamos de criar, mais tensos ficamos, o que se opõe, terminantemente, à soltura essencial para fazer diferente e com coragem. 


Criar não é romântico (pelo menos, numa grande maioria das vezes!). Romantizámos os empreendedores, os pequenos negócios, as marcas daquela pessoa que quase podíamos ser… Reencontrámos o gosto pelo barro e a cerâmica e já temos telas desenhadas, prontas a pintar, com as cores identificadas com números… Romantizámos! Eu também! Porque gostamos de ver cada vez mais pessoas a lutarem pela vida que imaginam, enquanto vivem o seu dia a dia, pouco presentes, insatisfeitas e infelizes. Mas criar o que quer que seja, do zero, por mais bonito que seja, consegue revolver-nos, muitas vezes, como se o nosso estômago fosse uma máquina da roupa e consegue enlouquecer-nos, quando, a um dado momento, não conseguimos desligar, por mais que queiramos. Porque é isso que tende a acontecer, quando demos o nosso cérebro, as nossas mãos, o nosso dinheiro, a algo que é nosso e que, no fim do dia, tem também a nossa dignidade, o bem dizer do nosso nome.


Criar consegue ser frustrante, porque, como dizia no início, nunca sabemos como é que tudo se vai desenrolar e temos de estar, constantemente, a gerir expectativas, sem, contudo, nos descuidarmos, ao ponto de, de tanta gestão, acabarmos por abdicar de tudo o que era, realmente, importante para nós, para, agora, estarmos, apenas, a fazer “o que dá” ou, como costumo dizer, a viver por aproximação ao que gostaríamos, como quem compra uma imitação. E porque, de tanto vermos produtos finais, esquecemos o que está por detrás dos mesmos - o trabalho, a frustração, o sentimento de insuficiência.


Criar consegue confundir-nos. Porque na gestão de expectativas, temos de aprender a separar o ideal de perfeição, daquilo que, realmente, é inegociável para nós e que deve ser levado, até à última consequência.


Mas criar é uma parte do ser, sem a qual não é possível viver.


Estar em terapia é criar. Ou, melhor, co-criar. É um processo lindo, mas desafiante. Científico, mas intangível. Difuso, porque a mudança ocorre, sem que tenhamos noção (às vezes, nem o próprio psicólogo a tem) e só nos apercebemos dela, quando já se deu. É duro, é. Mas é necessário. 



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