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E depois da maternidade, quem sou eu?

  • Foto do escritor: Filipa
    Filipa
  • 15 de jan.
  • 2 min de leitura



Por Daniela Morbey





Embora o papel de mãe seja, na grande maioria, um momento de realização, de um amor galopante que nem sabíamos que exis;a e, de uma ligação incondicional aquele ser tão pequenino e frágil; é, também um ponto de viragem radical, um sismo que parece ser capaz de abalar com as melhores estruturas da iden;dade de uma mulher. Porque, depois do parto, não nasce apenas um bebé, nasce também uma nova mulher, uma nova família e, uma nova dinâmica.


Para a mulher que acabou de se tornar mãe, é fácil perder-se entre as mamadas, noites mal dormidas, exigências constantes de um bebé que é completamente dependente de si... Quem é esta mulher? Onde ficou a sua individualidade? Onde ficaram os seus desejos? É aceitável ainda ter desejos? Onde ficou o tempo? Onde ficou ... ?


A mulher de outrora não desaparece, mas, transforma-se. Com o nascimento do bebé, espera-se que ocorra uma simbiose mãe-bebé, por forma a alimentar, proteger, amar e cuidar deste bebé, garatindo a satisfação de todas as suas necessidades. Contudo, esta mesma mulher que cuida e se entrega, precisa também de alguém que cuide dela, de alguém que a ampare e que a ajude na pergunta que surge, muitas vezes, em silêncio “quem sou eu agora?”.


A maternidade pode-se tornar uma autên;ca experiência de invisibilidade, focando-se quase todos os olhares no bebé. No entanto, temos uma mãe exausta, sensível, perdida, a tentar equilibrar tantas emoções que parecem surgir em catadupa, muitas vezes completamente contraditórias. Se há dias em que o amor transborda, outros são visitados pela culpa; uma mulher que se esforça para estar presente, mas que também se sente nostálgica do seu eu anterior; que ama profundamente o seu bebé, mas, que às vezes também precisa de estar sozinha; tanto há momentos de plenitude como, de um vazio diUcil de sen;r e de explicar. Estas emoções antagónicas parecem andar de mãos entrelaçadas, o que se torna assustador.


É importante falarmos sobre esta ambivalência emocional; sobre a possibilidade de o amor coexis;r com o cansaço; sobre a alegria poder ser invadida pela frustração; sobre a gratidão da maternidade ser visitada pela saudade da liberdade. Falar sobre estas emoções, nomeá-las, normalizá-las, e dar voz ao que sen;mos, é o que nos permite elaborar e ;rar o peso da solidão, o peso da culpa e, perceber, que afinal, é um sen;mento comum, que é uma maternidade real.


É preciso relembrar que cuidar de um bebé não significa esquecer-se de si, que não é egoísmo e capricho querer ter momentos só para si, pelo contrário, é uma forma também de garan;r a sua própria sanidade.


A mulher que exis;a antes não desapareceu, transformou-se, com novas prioridades, novos limites, novas forças, mas, con;nua lá, a tentar encontrar-se neste novo território. Não se trata de voltar a ser quem era, trata-se sim de descobrir em quem é que se está a tornar.


Ser mãe não anula a mulher, acrescenta-lhe mais camadas. E, quanto mais espaço houver para essas camadas todas, mais inteira e capaz essa mulher se torna e, por conseguinte, mais forte também neste seu novo papel.




 
 
 

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