Existo, mas não pertenço
- Filipa

- 11 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

Por Raquel Pereira
Perguntei numa mesa onde estava a jantar com amigas, e onde estavam duas mulheres trans, se gostavam do Natal. As duas primeiras pessoas a responder foram elas, as duas amigas mulheres trans à mesa, que disseram qualquer coisa como “é horrível, detesto, e só espero que esses dias passem rápido”. Primeiro ficou um silêncio à mesa.
Depois, conversámos sobre aquilo e trocámos algumas ideias, mas não consegui deixar de pensar em como não faço a mínima ideia o que é estar no lugar delas, e desconheço felizmente o sentimento que as leva a detestar esta época das festas.
Bem sabemos que esta fase do ano não é feliz para a toda a gente, e para muitas pessoas é tudo menos uma época mágica. Mas aqui, estamos a falar de algo diferente. Segundo o que elas me contaram naquela conversa, é qualquer coisa do género: por ser quem sou, há pessoas na minha família com quem não posso estar, porque não gostam de quem eu sou e não aceitam quem eu sou, por isso não estou. E sentir que “não há lugar para mim por ser quem sou”, soou-me a uma dor angustiante difícil de processar. Esta é a experiência delas, mas acredito que não são histórias singulares.
Pensei de que forma, muitas vezes, as nossas necessidades emocionais estão mais à flor da pele em alturas como esta, e em como a expectativa nem sempre corresponde à realidade - no momento em que mais gostaria de poder existir como sou, e pertencer, foge-me a sensação de lugar seguro por entre os dedos.
Senti revolta naquela conversa ao jantar. Pensei em como às vezes o Natal é um certo ritual social para algumas famílias, uma espécie de performance onde nem todos passam no casting, e por isso nem todos podem pertencer. Ou pelo menos, pertencer de forma autêntica. Pensei no sentimento de solidão que isso deve causar. Pensei no que me vem à cabeça quando penso numa família no Natal, e uma das ideias que me surge é: diversidade. Talvez seja uma ideia ingénua. Se a diversidade e não conformidade no que toca ao género e sexualidade (ainda) é uma luta diária em tantos lugares, porque haveria de ser diferente à mesa com a família numa época festiva? Percebo porque é que nessa conversa ao jantar foi usada tantas vezes a palavra “luta”.
A autenticidade é uma das maiores sensações de liberdade que podemos sentir, e a mais importante, em primeiro lugar, é de nós para nós, independentemente da luta seguinte, que pode ser à mesa no Natal.
O meu abraço e toda a minha força para todas as pessoas que de alguma forma se identificaram com estas palavras.





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