top of page

O adulto não tem medo de amar — tem medo de repetir o que viveu!

  • Foto do escritor: Filipa
    Filipa
  • 29 de jan.
  • 5 min de leitura




Por Mariana Gaio






Durante muito tempo achei que tinha medo de amar. Dizia isso a mim própria com uma naturalidade quase defensiva, como quem fecha a conversa antes de ela começar. Mas, se fosse honesta, não era o amor que me paralisava. Era a memória dele.

Sempre que alguém se aproximava demasiado, um nó na garganta fazia-me hesitar em dar o próximo passo. Algo em mim recuava. Trancava-me a sete chaves e por vezes era fria e distante, na esperança de que quem tinha chegado se fosse embora. Afastava-me, mesmo querendo estar perto.

O problema nunca foi o risco de amar. Foi o risco de voltar a sentir-me pequena, dependente, invisível. De voltar a esforçar-me para ser escolhida. De pedir permissão para existir. De me sentir insuficiente, rejeitada e abandonada. De esperar como esperei antes. De sofrer como sofri antes. De amar mais do que sou amada.

Percebi, com o tempo, que estava a tentar proteger-me de repetir uma história que o meu corpo conhece demasiado bem. Às vezes afasto-me sem razão, ou torno-me excessivamente cautelosa, e depois sinto culpa por ter sabotado algo que eu realmente queria. É como se todas as minhas experiências antigas estivessem a acontecer de novo em miniatura, voltando a sensação de já saber como isto pode acabar.

Contudo, foi difícil perceber que, sempre que amo, corro o risco de voltar a ser quem tive de ser para não perder ninguém. Não é o amor que assusta… o meu medo não é do amor. É de voltar a amar da mesma maneira — e voltar a doer no mesmo lugar.





É frequente ouvir adultos dizerem que têm dificuldade em amar, em ligar-se a alguém, que se tornaram frios, defensivos ou emocionalmente indisponíveis. No entanto, quando escutamos estas narrativas com atenção, percebemos que raramente se trata de falta de capacidade para o vínculo. Trata-se, quase sempre, da memória emocional do que já foi vivido — e do medo que é despertado.


Essa memória não fica no passado, mas acompanha-nos, orienta as escolhas e infiltra-se nas relações que tentamos construir. Aquilo que foi aprendido numa relação torna-se, muitas vezes, a forma conhecida de estar em relação, e o que é conhecido tende a repetir-se. Assim, o amor torna-se arriscado não por ser novo, mas por ser demasiado familiar.


Desde cedo aprendemos, nas primeiras relações significativas, o que é amar. Essas experiências deixam marcas profundas pois é aí que aprendemos se é seguro aproximar, se é melhor conter, se precisamos de nos adaptar ou se podemos simplesmente ser. No fundo, sem darmos conta, vamos aprendendo até onde podemos ir sem nos perder. Para muitas pessoas, o conflito central está muitas vezes entre querer conectar-se e manter a própria identidade.


Porém, não é o amor que ativa o medo, mas a antecipação inconsciente das consequências de amar. Afastamo-nos para nos protegermos. Por isso, o medo que surge na vida amorosa adulta não é do vínculo em si, mas da memória que entoa dentro de nós: o receio de voltar a encontrar a ausência e rejeição, a intrusão, a imprevisibilidade afetiva ou a necessidade de nos moldarmos demais para caber no amor do outro.


Estas relações organizam também a vida amorosa adulta que, de uma forma muitas vezes discreta, continuam a condicionar a forma como nos ligamos aos outros ao longo da vida. Quando em crianças, o afeto que recebíamos era, muitas vezes, imprevisível: às vezes caloroso, às vezes crítico ou distante. De forma silenciosa, aprendemos que, para nos sentirmos seguros, precisávamos proteger-nos emocionalmente ou controlar a aproximação. No amor adulto, essas memórias não desaparecem, mas surgem como ansiedade, dúvidas, necessidade de afastamento ou excesso de cuidado com o outro, quase sem percebermos que estamos a reviver padrões do passado.


Ninguém entra numa relação a partir do zero. Levamos connosco a nossa história emocional, e o corpo não esquece. A memória do que vivemos perdura no tempo, trazendo feridas que nos fazem hesitar quando alguém se aproxima. Mas, no meio dessa cautela, habita também uma esperança, discreta e quase silenciosa, de que, desta vez, possa ser diferente.


E aqui começa um novo ciclo. Não repetimos padrões amorosos porque “escolhemos mal”, mas porque, sem perceber, tentamos dar sentido àquilo que ficou por resolver em relações antigas e importantes. Há uma tendência silenciosa do coração para reviver o que não foi totalmente assimilado, mesmo que tenha doído. Nas relações adultas, procuramos o familiar, não para sofrer de propósito, mas numa tentativa de finalmente entender, integrar, reparar o que falhou e acalmar aquilo que antes ficou sem voz. Repetimos não por castigo ou erro, mas porque algo ainda pede por ser compreendido.


Em suma, saliento que as nossas experiências relacionais moldaram expectativas, medos e formas de estar com o outro. Assim, o que muitas pessoas temem não é amar, mas sim voltar a amar como antes e sentir o mesmo aperto, a mesma solidão, a mesma necessidade de moldar para não perder o outro. É o receio de repetir a história e cair no mesmo enredo, de sofrer no mesmo ponto sensível. Não é o amor que dói. É a possibilidade de ele nos levar, outra vez, ao lugar onde já doeu.





Uma nota especial


A psicoterapia não serve para ensinar alguém a amar “melhor” ou “sem medo”. Serve para ajudar a compreender a própria história relacional e reconhecer o que se teme repetir. Num espaço seguro, onde a relação é pensada e sentida em conjunto, tornase possível reconhecer padrões que se repetem, perceber o lugar que se ocupa nas relações, dar palavras a emoções que antes só apareciam como reação, e, aos poucos, experimentar novas formas de estar com o outro.

Às vezes, não é o amor que precisa de mudar. É a forma como aprendemos a sobreviver dentro dele. A psicoterapia não é para “perder o medo de amar”. É para perceber de onde vem esse medo e se ele ainda precisa de existir. Porque, muitas vezes, o problema não é amar demais ou amar de menos. É amar com a mesma história, sem saber que ela pode ser reescrita.

É quando damos a oportunidade de a experiência passada poder ser pensada, sentida e integrada, que o amor deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma escolha mais livre, mais consciente e mais inteira!

Se este texto ressoou consigo, talvez seja um convite. Às vezes, dar palavras às nossas inquietações já é o primeiro gesto de mudança, o primeiro passo para amar sem ter de se proteger tanto. Amar não precisa de ser repetição. Pode ser escolher diferente, para que o amor volte a abrir portas a novas formas de vínculo. Para que o amor possa ser um lugar de encontro, sem nos perdermos de nós!





 
 
 

Comentários


Design%20sem%20nome%20(33)_edited.png
bottom of page