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Porquê a Guerra? - um medo silencioso

  • Foto do escritor: Filipa
    Filipa
  • 22 de jan.
  • 3 min de leitura



Por Tomás Lopes




Escrevo este texto não como político, não como comentador, mas como psicólogo. E, acima de tudo, como ser humano que observa o mundo com inquietação crescente. 


O panorama atual foi trazido para as sessões destas últimas semanas frequentemente e é, para muitos, profundamente assustador. A tensão entre potências, como o que vemos entre a Venezuela e os Estados Unidos, não acontece num vazio, acontece dentro da mente e do coração das pessoas comuns. Acontece nas casas onde há crianças a dormir. Acontece nas conversas sussurradas entre pais que tentam proteger os filhos de notícias que nem eles próprios conseguem digerir. Acontece no silêncio pesado de quem se pergunta, em segredo: “Que tipo de mundo estamos a deixar para eles?” ou “Em que tipo mundo os estamos a criar?”. 


O medo hoje não é apenas medo de uma guerra concreta. É um medo mais difuso, mais psicológico, mais corrosivo: o medo da imprevisibilidade. O medo de que tudo possa mudar de um dia para o outro. O medo de trazer crianças para um mundo onde a segurança parece cada vez mais frágil, onde os conflitos se banalizam, onde a instabilidade se torna rotina. 


E talvez o mais perturbador seja precisamente isso: a normalização. Gaza, Palestina, Israel, Rússia, Ucrânia são nomes que já soam quase como parte do ruído de fundo da atualidade. Tragédias humanas transformadas em ciclos noticiosos. Ao início chocam-nos, depois cansam-nos, e por fim… habituamo-nos. E essa habituação é, psicologicamente, uma forma de defesa. A mente humana adapta-se para sobreviver. Mas há algo de profundamente triste nessa adaptação: quando o inaceitável passa a parecer normal. 


Freud, na sua correspondência com Einstein no livro “Por que a guerra?”, toca exatamente nesse ponto essencial da natureza humana. Freud reconhece que existe em nós uma dimensão destrutiva, uma pulsão agressiva, quase animal, que faz parte da nossa constituição psíquica. Ele não romantiza o ser humano, até pelo contrário, é brutalmente honesto ao admitir que a violência não é apenas um erro da sociedade, mas uma possibilidade inscrita na própria condição humana. 


Há algo de desconfortável nessa ideia: certas coisas são, em algum grau, inevitáveis. Conflitos. Tensões. Explosões de agressividade coletiva. Isso não significa que devamos aceitá-las passivamente, mas significa que precisamos de compreender que a paz não é o estado natural do ser humano, mas sim uma construção frágil, que exige esforço constante.

 

E talvez seja isso que torna tudo mais pesado emocionalmente: a sensação de que o perigo não vem apenas “dos outros”, dos líderes, dos países, das ideologias, mas também da própria natureza humana. Como humanos isso confronta-nos com uma angústia profunda: como proteger quem amamos de algo que faz parte da própria estrutura do mundo? 


Vejo esse medo diariamente nas pessoas. O medo silencioso de quem olha para o futuro e não consegue imaginá-lo com clareza. O medo de quem pensa duas vezes antes de ter filhos. O medo de quem já os tem e sente uma responsabilidade esmagadora por algo que não consegue controlar. Não é um medo histérico, é um medo lúcido, é um medo existencial. 


Ainda assim, acredito que reconhecer esse medo, dar-lhe nome, compreendê-lo, é um ato profundamente humano e necessário. Fingir que está tudo bem não protege ninguém. Mas olhar para o mundo com consciência, com sensibilidade e com empatia talvez seja a única forma de não nos tornarmos completamente anestesiados. 


Escrevo isto não para alarmar, mas para validar aquilo que muitos sentimos em silêncio: sim, é assustador. Sim, é pesado. Sim, é legítimo sentir medo. E talvez, ao reconhecermos essa fragilidade coletiva, possamos também PENSAR em algo essencial  a capacidade de cuidar uns dos outros, mesmo quando o mundo lá fora parece cada vez mais desumano. 




 
 
 

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