top of page

A morte da esperança

  • 23 de fev.
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 5 dias





Por Luís Chambel Martins





Por mais surpreendente que tal possa parecer, parte significativa do sofrimento psíquico nasce da esperança. Não de toda ela, mas de certas formas que pode tomar. Em particular, da esperança de que alguém venha, finalmente, a compreender-nos, a reconhecer o que nos faltou e a colmatar essa lacuna; de que alguém venha, finalmente, a mudar. Muitas dessas expectativas são legítimas, correspondendo a necessidades de validação, cuidado ou reparação, mas são colocadas num lugar onde já não podem ser satisfeitas, mantendo-se dirigidas a figuras que, por razões próprias, não têm a disponibilidade ou até a capacidade para responder de modo distinto do que é habitual.


Essas esperanças funcionam como um investimento contínuo. Aguardamos sinais, interpretamos gestos, adiamos decisões… suspendemos, no fundo, partes da nossa vida interna e externa. A dor não reside apenas no que não foi nem é dado, mas na espera prolongada (frequentemente silenciosa) por algo que continua, de forma sistemática, a não se concretizar. Paradoxalmente, quanto mais justa nos parece a expectativa, mais difícil se torna reconhecer que ela pode ser irrealizável – não por falta de merecimento da nossa parte, mas por limites do outro sobre os quais não temos controlo efetivo.


O processo terapêutico pode, então, implicar a travessia de um luto discreto, mas profundo: o luto pela versão da pessoa que gostaríamos que existisse. A morte da esperança não tem, contudo, de ser um ato de cinismo nem de resignação amarga. Pode, antes, representar um ato de libertação, no qual o peso da ilusão de que a mudança dessa pessoa depende da nossa persistência ou sacrifício é posto de parte.


É nesse ponto que algo novo pode florescer. Quando a esperança impossível é elaborada, cria-se espaço para a possibilidade de fazer escolhas mais enraizadas na realidade: a aceitação, a reconfiguração da relação ou o afastamento. A terapia não promete mudar o outro, mas pode ajudar a entender por que razão esperamos o que esperamos, bem como a construir uma vida menos condicionada por promessas que não nos cabe fazer cumprir.




 
 
 

Comentários


Design%20sem%20nome%20(33)_edited.png
bottom of page