O mito do Natal Perfeito
- Filipa

- 10 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Por Sofia Lebres
Tomados pelo desejo sedutor de controlar as nossas vidas e o que sobre elas sentimos,
organizamos a nossa história em grandes capítulos (semelhantes a manchetes de jornal), que
descuram toda a riqueza, detalhe e invariável ambivalência do que vivemos. O tempo,
minuciosamente organizado em slots, que nos indicam o que fazer e como nos apresentar, a
cada momento, é só mais um sintoma deste controlo.
Na agenda corrida das nossas vidas, ao mês de dezembro ficou reservado o brilho dos sonhos
e da magia, de tal maneira que acreditamos que as luzes e canções de Natal são capazes de
tornar o espírito leve, revitalizado, e de pôr em stand by qualquer desconforto que estejamos
a sentir. No fundo, é como se, neste período, nos obrigássemos a ignorar a nossa própria
continuidade e o modo como tudo o que somos é o produto de tudo o que se tem vindo a
passar nas nossas vidas.
A verdade é que o Natal transborda ideais profundamente humanos. Todos desejamos
sentirmo-nos felizes e radiantes. Todos apreciamos o “quentinho” da segurança que nos
envolve, quando nos sentimos pertencentes a um lugar onde o amor circula e onde somos
aceites, com as nossas diferenças. Todos ansiamos por relações tão clarividentes, que são
capazes de nos adivinhar com o melhor dos presentes.
Mas a vida não tira férias em dezembro.
Podemos estar longe da nossa família. Podemos estar com a família da pessoa com quem
esperamos passar todos os Natais da nossa vida, mas que, sinceramente, podia ter escolhido
outra mãe! Podemos estar ao lado da nossa família e perceber uma falta de encaixe, porque,
em terapia, nos reencontrámos connosco, demos colo à nossa dor, mas redescobrimos uma
zanga antiga com alguns familiares, com quem só nos apetece embater. Podemos estar muito
tristes, porque nos apercebemos que andámos a viver uma vida que, de tão pouco nossa, nos
desgastou e roubou a esperança. Podemos estar a fazer um luto - de uma pessoa que morreu,
de uma relação, de uma gravidez. Podemos estar a recomeçar, mas ainda perdidos, sem saber
para onde ir. As opções são inúmeras e tão únicas, como a história de cada um de nós.
Por isso mesmo, nesta altura do ano, podemos sentir-nos particularmente desadequados,
estranhos, frustrados ou irritados, por não conseguirmos corresponder ao estado de graça que
o mundo nos parece exigir. Por, mais uma vez, a vida parecer estar a ser especialmente difícil
ou, apenas, imperfeita, especificamente connosco!
E eu só quero dizer-te que está tudo bem! Que dezembro não apaga as nossas dores e
desconforto. Que a vida pode estar só uma merda. E que vai passar! Dezembro vai passar! E
a dor, devagarinho, também! Ela, como nós, só quer ser vista, mas tende a sentir-se
injustiçada. Porque insiste em chamar-nos à atenção para aspetos da nossa vida que precisam
de cuidados e nós insistimos em ignorá-la. Mas, como, muitas vezes, a nossa dor é uma
demonstração da nossa força e reivindicação, que deseja apenas que possamos viver de forma
mais genuína, ela cresce perante nós e faz-nos sentir pequeninos. Crescemos perante ela,
quando, inteiros, a assumimos e a colocamos no seu lugar - o de uma parte nossa, mas nunca
tudo o que somos. Uma parte da nossa história, que pode coexistir com outros momentos de
serenidade e, até, alegria.
Vidas e Natais mais felizes serão, talvez, mais verdadeiros. Afinal, o verdadeiro tempo da
esperança não se mede pela ausência de dificuldades, mas pela confiança de que, no meio
destas, podemos, ainda assim, viver bem.





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