Trauma não é o que te acontece – é o que fica em ti
- 12 de mar.
- 5 min de leitura

Por Mariana Gaio
Ao longo de toda a minha vida, ouvi comentários que deixaram marcas profundas. Desde criança, alguém dizia coisas como “ninguém vai querer estar contigo enquanto fores assim”, “ninguém vai gostar de ti porque és diferente”, “vai ser difícil encontrares alguém que te aguente” ou ainda “tu estragas tudo, por isso ninguém te quer por perto”. Havia comentários que se repetiam, vindos das mesmas vozes ou de tantas outras, perseguindo-me dia após dia, até que se tornaram parte de mim.
Na altura, achei que conseguiria simplesmente seguir em frente. Que se ignorasse certas experiências, elas desapareciam. Tentei convencer-me de que eram só palavras. Mas essas palavras ficaram comigo, silenciosas, moldando a forma como me via e como me relacionava com os outros.
Com o tempo, percebi que também evitava a intimidade. Não porque não quisesse amar, mas porque algo dentro de mim sussurrava sempre que “não valia a pena”, que “não ia conseguir”. Frases simples, mas punitivas, sempre a repetir a mesma ideia: “não mereces”. Se alguém se aproximava, eu bloqueava, inventava desculpas, recuava. E depois, sentia-me frustrada e sozinha, culpando-me por “não conseguir arranjar ninguém”. Mais tarde entendi que não era só má sorte. Era o resultado de experiências e comentários antigos que nunca foram compreendidos ou integrados.
Durante muito tempo achei que o trauma tinha sido aquele episódio específico. Aquele dia. Aquela frase. Aquela ausência. Eu podia descrevê-lo com detalhe, quase como como se fosse uma fotografia congelada no tempo, ou um filme em câmara lenta, onde cada gesto, cada palavra, cada silêncio tinha uma nitidez quase dolorosa. Mas o que não sabia explicar era porque continuava a reagir como se aquilo ainda estivesse a acontecer. O trauma era sentido no meu corpo, nas minhas relações e no medo de amar.
Mais tarde, percebi. O que ficou em mim é maior do que o que aconteceu, e o que ficou em mim e impediu-me de amar. O trauma não estava no acontecimento, estava no aperto no peito quando alguém se afastava. Estava na minha dificuldade em confiar quando alguém genuinamente queria cuidar de mim. Estava na forma como me calava quando precisava de falar, e falava demais quando precisava de silêncio. Percebi, igualmente com o tempo, que o que ficou em mim não foi só a memória do que aconteceu, mas a sensação de não ter sido vista, acolhida e protegida. Foi a solidão após dias a fio com comentários cruéis.
O trauma não é o que nos define, mas o que nos aconteceu e ficou em nós. No meu caso, ficou a dificuldade em confiar, o medo de me expor física e emocionalmente, e a crença de que nunca haveria alguém capaz de me amar. Mas o que me marcou pode ser acolhido e transformado, é assim que, atualmente, descubro a possibilidade de amar e ser amada de verdade!
Histórias como esta repetem-se de muitas formas. Cada pessoa tem a sua própria vivência, mas o que se observa em comum são experiências que deixam marcas profundas. Momentos em que o corpo, a mente e o coração ficam em alerta, porque a situação foi demasiado difícil para ser compreendida ou acolhida na altura.
Quando muitas pessoas ouvem a palavra trauma, pensam imediatamente em grandes acontecimentos isolados, como um acidente, um assalto ou um momento específico que ficou gravado. E, de facto, esses eventos podem ser traumáticos, sendo entendidos como “experiências muito stressantes, que ameaçam de forma significativa a segurança e o bem-estar físico ou psicológico”. Desta forma situações traumáticas podem incluir acontecimentos que nos fazem sentir “em choque, assustados, ameaçados, humilhados, rejeitados, abandonados, invalidados, inseguros, horrorizados, não apoiados, presos ou limitados, envergonhados, sem poder ou controlo” (Ordem do Psicólogos Portugueses, OPP).
O trauma, muitas vezes, não é uma história clara que conseguimos contar. Aparece de forma discreta, entre memórias e sensações, no aperto no peito e no corpo tenso sem motivo aparente, na mente que revive momentos que já passaram, acompanha-nos mesmo quando tentamos seguir em frente. O trauma vive nas nossas reações, emoções e relações, mesmo que a pessoa não se consiga lembrar ao detalhe do acontecimento e mesmo que esse acontecimento tenha terminado (Middlesdorf, 2025). Talvez tenha sido um comentário que nos marcou na infância, uma palavra que nos fez sentir inferiores ou humilhados, ou uma rejeição que nos deixou congelados. Mas o trauma não é apenas uma memória, é o que ficou em nós depois. Manifesta-se no coração que dispara perante a distância do outro, na dificuldade em confiar, na vigilância constante, na leitura minuciosa de cada gesto ou palavra, e no medo de nos mostrarmos por inteiro. Trauma é o fragmento de uma experiência dolorosa que molda a forma como sentimos, reagimos e nos relacionamos com os outros, mesmo sem nos apercebermos (Schore, 2022; Lewis, 2024).
Em termos simples, muitas vezes não nos damos conta de que o trauma está a agir, basta um olhar, uma crítica subtil, uma situação que lembra vagamente o que já vivemos, pode fazer disparar medo, hipervigilância, culpa, vergonha, dificuldade em confiar, raiva, tristeza, insegurança, vulnerabilidade, desesperança ou quando nos imobiliza perante algo ou alguém que é significativo para nós (OPP; Middlesdorf, 2025).
O trauma assenta na forma como uma experiência intensa excedeu a nossa capacidade de a regular, afetando a nossa identidade e o nosso sentido de segurança emocional. Na realidade, são memórias antigas ainda não elaboradas que estão a ser ativadas, ou seja, é o passado a falar através do presente. Segundo as contribuições de Judith Herman (1992), o trauma ocorre quando uma experiência ultrapassa a nossa capacidade de a integrar, deixando-nos sem chão, sem palavras para a processar, ou sozinhos com o que sentimos. Instala-se quando este acontecimento, que deixou marcas profundas, não é acolhido por ninguém, quando ninguém nos ajuda a dar-lhe sentido. O que fica em nós é um padrão emocional que organiza a forma como nos relacionamos e como respondemos ao mundo (Middlesdorf, 2025). O trauma não define quem somos, mas deixa a sua sombra no que vivemos.
Uma nota especial
Se este texto te tocou, se tu reconheces estas sensações no teu corpo, nas tuas relações, na forma como te encantaste e desencantaste com o amor… então talvez haja sentido em pensar sobre estas experiências com cuidado e presença.
Porque trauma é aquilo que fica quando uma experiência emocional intensa não pôde ser simbolizada e acolhida. E é por isso que o trabalho terapêutico não é apagar o passado, mas oferecer, no presente, uma nova experiência relacional. Dar oportunidade aos acontecimentos que marcaram de cicatrizarem, de serem finalmente pensados, sentidos e transformados, para que não ditem mais cada escolha, cada relação, cada sentimento. Esse é o espaço que a terapia cria, um lugar seguro para sentir, reconhecer e nomear experiências, padrões que nos bloqueiam, permitindo-te agir de forma mais livre e autêntica em relações afetivas e para que recuperes a capacidade de amar.
Por outras palavras é dar voz ao que ainda dói, acolher o que ainda vive em ti, e encontrar novas caminhos para transformar aquilo que hoje te limita em algo que te fortalece. Porque não é o que te aconteceu que define quem és… é o que podemos juntos transformar no que ainda está por dizer!


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