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Ano novo, vida nova?





Gosto de pontos de viragem, como o ano novo. Não que na verdade não exista uma continuidade e se quisermos, continuará tudo exactamente igual, mas porque nos permite refletir. E a reflexão é ponto de partida para o crescimento.


Digo-o muitas vezes, porque é uma das minhas maiores verdades, que na vida existem três certezas: a morte; a impermanência e o sofrimento. Todo o ser que vive, eventualmente morre. Tudo muda, ou por vontade ou mesmo contra ela. E o sofrimento, por mais que o queiramos camuflar com ideologias positivas, desresponsabilização ou negação, é o que nos permite crescer (principalmente quando o olhamos de frente) e saborear a beleza das pequenas coisas. Mas estas são três certezas, das quais fugimos todos os dias e raramente pensamos sobre elas. Porque assustam e magoam muitas vezes e temos sempre aquela ideia de que pensar sobre o que nos dói, é sermos engolidos por isso. Quando é tudo ao contrário e para mim, esta foi das maiores lições que senti em 2020.


O ano que agora termina foi um ano atípico. Todos o ouvimos, secalhar demasiadas vezes. E foi. Um ano onde contactámos diariamente com a morte, em todos os ecrãs e relatos. Não que a mesma não estivesse presente, porque sempre esteve todos os dias, mas escolhemos não olhar para ela porque na verdade, devemos olhar para a vida (e é suposto). Foi também um ano que nos mostrou (novamente!) que tudo muda, que o controlo é ilusório. E o sofrimento, este foi um ano em que assistimos a um sofrimento global e transversal, mas também a uma interajuda nunca antes sentida ou vivida, que caminhou para a solução.


Não sou de floreados. Não acho que exista um despertar global, porque todas as experiências são subjetivas e teríamos de pensar sobre o que é na verdade um "despertar". Como também, uma pandemia não é uma situação inédita e nunca antes vista, já aconteceu noutros momentos históricos. O que acredito é que como em todos os momentos de maior dificuldade, sofrimento e desafios, existem momentos de reflexão para quem os olha de frente e como disse, esse é um ponto de partida para o crescimento.


Gosto de pontos de viragem, que nos permitem pensar, elaborar, crescer e fazer diferente. Mesmo que seja (como se não fosse o mais importante) apenas nas pequenas coisas: na forma como nos relacionamos connosco, com o outro e com o mundo; como escutamos e lemos nas entrelinhas; como saboreamos os pequenos sorrisos, o café quente pela manhã e as tão comuns histórias de encantar, que nos transportam por breves momentos; e as nossas emoções, como as podemos sentir ao invés de fugirmos delas.


Ano novo, vida nova? Sim, se quisermos.


Um bom ano para todos!









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